sábado, 24 de janeiro de 2009

O que não se ensina

Quem pergunta qual o sentido da vida não sabe viver.
Não há sentido.
Quer dizer, o sentido da vida é viver.
Cada um de um modo, cada um à sua forma.
Nem bem nem mal.
Às vezes bem, às vezes mal.
Mesmo sem se ter consciência disso.
Vai-se vivendo.
Ainda não vi uma criança perguntar qual o sentido da vida.
E olha que elas fazem muitas perguntas.
Mas acho que ninguém nunca viu elas perguntarem isso.
Quem pergunta não sabe como viver.
E não digo isso como crítica.
Simplesmente porque não aprendeu mesmo.
E não é que seja difícil, mas é que também não dá pra ensinar.
E para quem não sabe, não é fácil chegar lá.
Isso não é aprendido.
Nem ensinado.
Apenas sabe-se ou não.
O que se busca fora não está em outro lugar - senão dentro.
É difícil de explicar.
E quem pode saber?
Acho que há os escolhidos.
Mas essa escolha não é, defitivamente, feita por raça, classe social ou opção sexual.
Ainda bem.
É dádiva.
Divina?
Não vou afirmar isso.
Prefiro acreditar que todos podem ser os escolhidos.

sábado, 17 de janeiro de 2009

À procura de si

Os pensadores têm almas tristes
São inquietos
Questionadores
Rebeldes
Revolucionários
Não se contentam com o pré-estabelecido
Querem fazer suas normas
Vivem em gangorras
Algumas vezes são companheiros dos vícios
Precisam do fundo para expressar o que sentimos
Falam menos para sentir mais
Sentir o que muitos sentem
Mas não dão nomes
Olham muito
Observam demais
Escrevem no calado
Na noite
Quando o mundo dorme
Quando estão sozinhos
Estão sempre à procura de si
Mudam de cidade
de país
Mudam os comportamentos
E depois se descobrem ainda os mesmos perdidos

Meu eu

Meu eu tudo pode
Às vezes nada faz
Ele tem a força de construir o mundo
E de aniquilar meu próprio eu
Sou meu melhor amigo
Posso tudo o que quiser
Sou também meu pior inimigo
Tudo que posso é ser contra mim
ou também a favor de mim.
Nunca ambos
Sempre um ou outro
Sem encontrar o equilíbrio das forças
Nem mesmo o domínio do meu eu
Tenho a força dos bravos
Mas às vezes a inércia dos pequenos
Sou tão forte, tão guerreiro
Mas diante do mundo, eu me sinto miúdo
Como pode o mundo permanecer sempre o mesmo
Se muitas vezes me sinto tão diferente diante dele?
O mundo não muda
Permanece
Eu é que me transformo.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Quando finda o amor

Vivencia-se o vazio da morte.
Sente-se a morte de alguém que ainda vive.
Porque chega ao fim sem hora marcada.
Sem nada acordado.
Um alguém que continua a existir, mas não mais para você.
Ou talvez você não mais para ele.
Quando vem o fim, não vem simultaneamente para os dois envolvidos.
Se assim fosse, haveria menos surpresa e dor.
Quando finda, não há mais o amanhã compartilhado.
Só o ontem.
Nem há mais muito a se fazer.
Só lamentos pelos sonhos perdidos e pelas emoções vividas.
Não se cobra de alguém o cumprimento da obrigação de amar.
Muito menos as promessas feitas e não cumpridas.
Que bom seria se o amor fosse um contrato.
Não, infelizmente não o é.
Não cabe reparação.
O amor dura até quando os dois consentem.
Se um não quer mais, ao outro cabe apenas sentir a dor do nunca mais.
E nunca mais é expressão forte.
Se alguém vai embora, sente-se saudade.
Mesmo que nunca mais se vejam.
Mas se alguém morre, sente-se a impotência diante do nunca mais.
Por isso o homem precisou acreditar na existência de um amanhã.
Um consolo.
Uma continuação para o fim.
Uma vida depois dessa.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Para quem ainda não aprendeu a viver

O torpor não são apenas os vícios consentidos.
Segue junto aos compulsivos.
Há mais do que se pode supor.
É um misto de loucura.
É a fuga de si.
É a busca por algo que não se encontra ali.
O torpor confunde os sentimentos.
Ora os exagera; ora os esconde.
O torpor obsta a sentir a dor.
E depois dele, esta é ainda maior.
O torpor é uma fuga burra.
É o caminho apressado dos que agem movidos pela emoção.
Ele nunca está acompanhado da razão.
O torpor não combina com a pureza.
Nem tampouco com a clareza.
Não rima com equilíbrio.
Não condiz com a vida.
Ele aniquila a alma.
Ah, o torpor...!
Segue junto àqueles que ainda não aprenderam a viver.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Papéis

É preciso a solidão para o auto conhecimento.
É preciso o silêncio de fora para poder ouvir o barulho de dentro.
Com frequência, é preciso uma folha de papel e caneta para o auto conhecimento.
Não conhecemos as pessoas.
Não nos conhecemos.
Diante da normalidade, julga-se que somos todos previsíveis.
Diante do inesperado, vêm as surpresas.
Não há pessoa que tenha sempre o mesmo comportamento.
As pessoas comportam-se de acordo com as outras que estão à sua volta.
E isso não é ser mascarado.
Mas ninguém é tão autêntico a ponto de se mostrar por inteiro diante de todas as pessoas.
Especialmente, diante dos diferentes.
Encenamos papéis.
E eles vêm de acordo com a impressão que queremos passar ao outro.
Sozinhos, nós somos todos nós mesmos.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Começando...

Preces, promessas e resoluções.
Ano novo é sempre lembrado como um momento de esperança e de renovação de sonhos.
É o momento em que se pode deixar de penitenciar-se pelas resoluções que não foram cumpridas.
Agora, tem-se a chance de fazer diferente - e melhor.
A contagem do tempo foi sabiamente dividida pelo homem em anos para que pudéssemos dar-nos a chance de recomeçar diante das coisas que não deram certo no passado.
E os anos são todos iguais - dias, meses e anos.
As expectativas é que são diferentes, já que muitas vezes os fatos continuam a se repetir ano após ano.
Trocar a página do calendário é uma boa forma de dar poder ao homem - de fazê-lo sentir que é dono de sua própria história e que pode dar a ela o rumo que deseja.
Isso é necessário ao homem.
Precisamos sonhar, ter esperanças, acreditar...
Dizem que o homem é um animal racional, no entanto, o homem precisa de um quê de emoção e imaginação para viver.
Sem tais componentes, a travessia da vida seria mais acidentada.
Sem isso, a vida é dolorosa.
É preciso acreditar que amanhã podemos fazer diferente.
O homem crescido ainda é como a criança que acredita que, por meio dos sonhos, pode construir o que ainda falta realizar.
Ao se fazer a retrospectiva de um ano passado, vêem-se sempre as mesmas coisas: boas e ruins. Não somente um tipo delas. Mas ambas.
Por mais otimista e feliz que seja alguém, seu ano não poderá ter sido apenas de boas recordações ou vice-versa.
Assim vê-se que as conquistas vêm juntas com as derrotas.
O que pode mudar é a maneira de recebê-las.
Se se muda a percepção das coisas.
Acreditar que cada sofrimento é uma oportunidade para crescer é uma boa maneira de receber as coisas ruins da vida.